CHOVE SOBRE MACONDO, E GABO JÁ NÃO PODE FAZER PARAR – Alexandre Haubrich

gabo

Choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias. Houve épocas de chuvisco em que todo mundo pôs a sua roupa de domingo e compôs uma cara de convalescente para festejar a estiagem, mas logo se acostumaram a interpretar as pausas como anúncios de recrudescimento.

Chove em Macondo. Morreu o deus dos Buendía. É feita dos lamentos de milhões de leitores apaixonados a tempestade que cai e seguirá caindo por muito mais do que quatro anos, onze meses e dois dias sobre uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. Mas Gabriel García Marquez, que não mais escreverá por suas próprias mãos, legou à humanidade um pouco menos de solidão. Foram 87 anos de presença, e sua obra não mais permite sua ausência. A morte física de Gabo, neste 17 de abril, coloca mais uma pedra sobre o século XX, e talvez falte pouco mais do que seu grande amigo Fidel Castro para que o século se encerre de uma vez. É a crônica de uma morte anunciada, mas não por isso menos doída.

Gabriel García Marquez nasceu pela primeira vez em 6 de março de 1927, em Aracataca, na Colômbia. Nasceu outras tantas vezes, uma a cada texto  que entregava à humanidade. Sem qualquer diploma universitário – não completou os cursos que iniciou em Bogotá – trabalhou como jornalista desde os 21 anos, tendo se transformado em seguida em correspondente internacional. Depois de muitas andanças, acaba por se mudar para o México, onde morou e onde morreu nesta quinta-feira. Em seus tempos de jornalismo, García Marquez se manteve próximo à literatura, inclusive com livros que misturavam os dois talentos. Foi assim até chegar a Cem Anos de Solidão, uma das mais importantes obras literárias do século, publicada em 1967. O realismo mágico ganhava sua expressão maior, e a América Latina ganhava um auto-retrato – nascido dela, com ela, para ela. Depois de anos doente – fazia cinco que se anunciara que não mais escreveria – Gabo descansou na tarde desta quinta-feira, 17 de abril.

Um Kafka latino-americano, que incorporou o absurdo da realidade ao verossímil da ficção, o escritor colombiano foi um pouco cubano, bastante mexicano, mas, sobretudo, foi latino-americano. Foi a América Latina que enxergou com olhar de jornalista e cantou com enorme talento de ficcionista que percebe que apenas a ficção pode ser capaz de alcançar o fantástico e o mágico – para bem e para mal – do real. Crônica de uma morte anunciada Amor nos Tempos do Coléra foram outras de suas obras mais celebradas. O último livro que escreveu foi Memórias de Minhas Putas Tristes, no qual um homem pretende comemorar seu aniversário de 90 anos com uma noite de sexo com uma adolescente virgem, mas acaba preferindo contar suas histórias de amores, dores e prazeres passados. Um velho jornalista solitário querendo provar ao mundo e a si mesmo que ainda estava vivo. Gabriel García Marquez já não pode mais tirar a prova, mas, se ainda pudesse ver, perceberia o quão vivo e presente alguém pode continuar depois de ser levado embora.

Gabo foi o primeiro colombiano e quarto latino-americano a receber um Prêmio Nobel de Literatura, em 1982. Em seu discurso, atacou as misérias humanas e suas causas, apresentou uma realidade com pouco amor e muito cólera, e gritou por mudanças: Cara a cara com esta realidade horrenda que pode ter parecido uma mera utopia em toda a existência humana, nós, os inventores das fábulas, que acreditamos em qualquer coisa, nos sentimos inclinados a acreditar que ainda não é tarde demais para nos engajarmos na criação da utopia oposta. Uma nova e avassaladora utopia da vida, onde ninguém será capaz de decidir como os outros morrerão, onde o amor provará que a verdade e a felicidade serão possíveis, e onde as raças condenadas a cem anos de solidão terão, finalmente e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra.

Ao suspirar pela última vez, Gabo deixa a humanidade um pouco mais só. Mas, enquanto pode escrever, construiu pontes entre a dura realidade que descreveu e a possibilidade de novas oportunidades sobre a terra para todos os que delas necessitam. Gabo fez chover e fez abrir o sol sobre Macondo. Por alguns anos, a chuva quase parou. Recrudesceu. Agora, chove outra vez. Torrencialmente.

Fonte : Jornalismo B – 17/04/2014

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