O mal primordial o orgulho nosso de cada dia – Leandro Karnal

Leandro Karnal: O mal primordial o orgulho nosso de cada dia

Diz no capítulo 1 do Eclesiastes, texto atribuído à Salomão:  “O que o homem ganha com todo o seu trabalho em que tanto se esforça debaixo do sol? Gerações vêm e gerações vão, mas a terra permanece para sempre. O sol se levanta e o sol se põe, e depressa volta ao lugar de onde se levanta. O vento sopra para o sul e vira para o norte; dá voltas e voltas; seguindo sempre o seu curso. Todos os rios vão para o mar, contudo o mar nunca se enche; ainda que sempre corram para lá, para lá voltam a correr. Todas as coisas trazem canseira. O homem não é capaz de descrevê-la; os olhos nunca se saciam de ver, nem os ouvidos de ouvir. O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada de novo debaixo do sol. Haverá algo que se possa dizer: “Veja! Isto é novo!”? Não! Já existiu há muito tempo, bem antes da nossa época. Ninguém se lembra dos que viveram na antiguidade, e aqueles que ainda virão tampouco serão lembrados pelos que vierem depois deles.”
 
Um texto absolutamente depressivo, absolutamente falta de lithium, mas a ideia doEclesiastes é a seguinte: não importa a experiência que eu tenho, ela é insuficiente. O grande tema de Fausto de Goethe: não importa a experiência, ela é insuficiente. Não há viagem que seja única e definitiva, não há sexo o suficiente, tudo é passageiro. Passada a sensação de prazer – os budistas já advertiam – vem a necessidade de novo e, vinda a necessidade de novo, eu preciso novamente do prazer. Então, tudo é vaidade, tudo é assombração, tudo é representação, tudo é absolutamente igual (?).
 
Para os religiosos, a realidade é um desvio, do qual eu amo a um ser criado – no caso “eu”. Amo as minhas virtudes como se elas fossem minhas, como se para ser bonito, inteligente, rico, ágil, forte, carismático eu tivesse lutado por isso; quando, na verdade, segundo os religiosos, isso me foi dado por Deus como um talento para ajudar os outros. Ter orgulho da inteligência dada por Deus constitui o pecado da vaidade – posto que a ganhei pronta – e me afasta do amor ao criador.
 
Queria ir um pouco além desta ideia dos religiosos, o que é fundamental. Vou lembrar aos senhores uma vida de um santo, um santo famoso, o Santo Antão que um famoso na tradição dos Anacoretas – aqueles que vão para a caverna e passavam a vida inteira no deserto jejuando, comendo gafanhotos e mel como São João Batista.
 
Santo Antão foi um homem que morreu aos 105 anos dos quais quase a vida inteira passou morando numa caverna jejuando e sendo atacado diariamente pelo demônio – o demônio o elegeu como meta corporativa, precisava desviá-lo de seus propósitos e se concentrou em Antão por quase oito décadas (…) Quando olhava para o crucifixo, ao invés do Cristo, via uma mulher nua; fazia jejum e aparecia sobre a mesa a comida mais extraordinária (…) E Antão era um homem excepcional – praticamente um não humano – e resistiu a tudo.
 
Oscar Wilde nos vai dizer, no século XIX, que se eu resisto à tentação é que ela não foi forte o suficiente, porque, sendo forte, eu não resisto; mas, como sabem, Oscar Wilde está no inferno e, Antão, no céu. Antão resistiu e, segundo uma tradição apócrifa, não da Legenda Áurea, não dos santos, uma tradição que bebe de várias fontes, inclusive que virou texto com Flaubert, no século XIX: o demônio desistiu de Antão; quando este estava com seus 105 anos, virou-lhe as costas e disse, “Você venceu! Pela primeira vez na história alguém foi mais forte que eu” e se retirou da caverna, e, Antão caiu de joelhos e agradeceu a Deus com uma oração simples, “Muito obrigado, agora me tornei um santo”, o demônio sorriu e voltou.
 
(…) Antão resistiu a todos os pecados, menos ao da vaidade – a vaidade de ser santo e de ter resistido aos pecados. Isso mostra que, no fundo, a pessoa virtuosa, a mulher fiel, o homem dedicado, o filho exemplar, comentem o pecado de dizer “eu não sou como adúltera, como o infiel ou o filho rebelde”. Por trás de cada virtude há exuberância que se aproxima do vício.

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